quinta-feira, 22 de maio de 2008

SINCRONICIDADE

Ainda te leio como se escrevesses para mim, eu que todos dias te dou as palavras que não te couberam no coração.eu que te falo a todas as horas como se habitássemos ainda a sombra do meu quarto , e escrevo a sangue esta loucura quase branca que o tempo não mata, e cumpro em paz o indizível desígnio de te perder, de te perder infinitamente, já sem qualquer raiva, já só com o lado maior do amor que um dia nos uniu e marcou a este ponto de te olhar de bem longe e ver o quanto te ficou de mim.

O AMOR É OLFATIVO

Durante anos perguntei-me como guardava o amor, perguntei-me de que forma edificava a memória, de que modo permitia ao corpo libertar o desejo… é nestas horas de silêncio, entre o sono da cidade e o sono dos anjos, que me chegam todas as respostas. Enrosco-me sobre o seu corpo e inalo uma e outra vez o perfume do seu pescoço. São inspirações profundas, deliberadamente lentas, ditando o tempo suficiente para que cada molécula possa restituir o passado. Em segundos e como uma droga, o cheiro percorre dez mil anos de procura desesperada. Sobrevoa os séculos em que nos foi proibido o abraço, todas as vidas em que nos foi negado respirar a pele do outro, até alcançar o dia primeiro, o dia em que o amor gravou a sangue a eternidade. Por momentos o tempo pára, e o coração diz-me que foi nesse instante que nasceu a verdade, no momento exacto em que a minha pele e a sua se misturaram pela primeira vez. Depois expiro lentamente, soltando o passado à medida que regresso outra vez à cama onde nos deitamos, ao lençol que nos abraça. Então digo, eu conheço a força deste cheiro, conheço a longa viagem deste perfume. Não serão outros mil séculos suficientes para me roubar de novo o amor, porque num segundo, no breve instante em que o ar me incendiou o peito, eu respirei a eternidade.

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